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Terça-feira, Julho 31, 2007




Fragmentos de um Evangelho Apócrifo

3. Desventurado o pobre em espírito, porque debaixo da terra será o que agora é na terra.
5. Ditosos os que sabem que o sofrimento não é uma coroa de glória.
6. Não basta ser o último para alguma vez ser o primeiro.
7. Feliz o que não insiste em ter razão, porque ninguém a tem ou todos a tem.
14. Ninguém é o sal da terra; ninguém, em algum momento de sua vida, não o é.
16. Não há mandamento que não possa ser infringido, e também os que digo e os que os profetas disseram.
18. Os atos do homem não merecem o fogo nem os céus.
19. Não odeies a teu inimigo, porque se o fazes, és de algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que tua paz.
24. Não exageres o culto da verdade; não há homem que ao fim de um dia não tenha mentido com razão muitas vezes.
27. Eu não falo de vinganças nem de perdões: o esquecimento é a única vingança e o único perdão.
31. Pensa que os outros são justos ou o serão, e se não é assim, não é teu o erro.
41. Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia, mas nosso dever é edificar como se fora pedra a areia...
47. Feliz o pobre sem amargura ou o rico sem soberba.
50. Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor.
51. Felizes os felizes.

Jorge Luis Borges
Elogio da Sombra
1969



por meu paredro | 3:48 PM |
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Quarta-feira, Julho 25, 2007



(paradise lost is paradise found)


Uma menina me prometeu dias felizes.
Agora, eu sei que ela está em algum lugar da periferia das coisas,
vivendo uma vida antiga.
Ela escolheu assim, quem vai entender ?
Senti, não pela primeira vez, a tristeza de compreender que
somos como um sonho.
Eu penso na menina e nas alegrias perdidas.
(só os deuses podem prometer, porque são imortais)
Toda a história que nunca vai acontecer e me dou conta:
Se acontecesse, seria com o tempo um evento a mais,
uma lembrança, mais uma das vaidades ou hábitos da memória.
Agora é ilimitada, infinita. Capaz de qualquer forma e qualquer gosto
e independente de todas as pequenas coisas constrangedoras.
E existe, existe de algum jeito.
Viverá e crescerá como uma música e estará comigo até o fim.
Por isso eu posso dizer; está tudo bem, pequenina.
(também os homens podem prometer, porque na própria promessa
há algo imortal.)


(Obrigado, Señor Borges)



por meu paredro | 6:19 AM |
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Quinta-feira, Julho 19, 2007




Meus erros, eu tenho de viver com eles.
Como agora, e tão simples.
Eu tive minhas asas cortadas.
Desaprendi
a voar.
(a gostar)
Eu não queria descer.
Esses dias, só estava feliz quando não tinha tempo de pensar.
Estes dias, só me sentia bem quando estava por perto
de você
encantado
feito um bobo.



por meu paredro | 2:14 AM |
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Quarta-feira, Julho 11, 2007




Depois da tempestade, eu parei de procurar um caminho diferente e permiti a mim mesmo ser ignorante. Foi uma estratégia, e tenho que admitir que não deu certo. Ás vezes, perdemos tempo demais vivendo num modo menor. Depois, nem lembramos do que, na verdade, sequer aconteceu. Agora estou tentando as flexibilidades. Oferecer carinho por atenção. Aprender a pedir desculpas. Mostrar que me importo. O bugre vai se recolhendo á caverna. Numa transição dessas, não existem contornos. Tudo vai se estabelendo em termos de simetria, e mais uma vez eu sou um iniciante, nascido trinta anos atrás para elevar a minha voz a esta altura, e não mais alto que isso.



por meu paredro | 10:41 AM |
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Sexta-feira, Julho 06, 2007




Esta noite saímos para conversar e é claro que ficamos bêbados.
O garçom só sorria, ele nos conhece bem.
Os assuntos, nossos assuntos não importavam;
não lembraríamos deles depois mesmo.
Você estava linda sob a luz da cerveja,
as mesas em redor fervilhando de pessoas mutantes;
queríamos beber o mundo, queríamos apenas rir e esquecer
não sei o quê.
As horas voaram e de repente era o som familiar do bar fechando.
Saímos em ziguezague na madrugada, sempre damos um jeito de chegar em casa. Estômagos vazios, mentes borbulhando.
Fizemos sexo como zumbis animados, sem palavras ou recordações.
E eu sei
que amanhã vai ser a gastrite, as horas embaçadas.
Sal de fruta efervescente
onde deveria estar nosso amor, ou algo assim.
Outro dia de confusões e pensamentos incompletos
que preciso dividir
com você.
A tarde leva uma eternidade para terminar
e eu não vejo a hora de te ver,
de sair contigo para conversar
de novo.




por meu paredro | 6:21 AM |
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Segunda-feira, Julho 02, 2007




Como a andorinha no fio de alta tensão
como o bêbado no ralo da madrugada
eu tenho tentado
do meu jeito
viver livre.

Como a minhoca na calçada
entre a chuva e o sol
como o cavaleiro de um daqueles livros bem antigos
eu procuro salvar
o pouco que tenho de bom
para quem compreender.

E se eu,
se alguma vez fui grosseiro,
espero que você possa passar por cima e esquecer.
E se eu alguma vez fui desleal,
espero que saiba que nunca, nunca com você.

Como um bebê chegando ao mundo,
como uma besta com seus cascos,
eu machuquei cada pessoa que tentou chegar realmente até mim.
Mas eu juro por estas palavras,
e por tudo o que tentei fazer e deu errado,
eu não vou parar de tentar
e não esquecerei
de nada do que fomos.



Transpirado de Leonard Cohen



por meu paredro | 8:58 PM |
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