Quarta-feira, Agosto 29, 2007
O dia é manso,
Como que tentando camuflar a escuridão no ar.
Quanto está para chover, o tempo pára.
* Tá feio o céu, hein ?
* Não tá não.
Eu afundo a cara no jornal e finjo ler. As letras embaralhadas.
Estou escuro também, eu faço parte da camuflagem.
* Que horas são ?
Mostro o pulso vazio. Quando está para chover, eu páro.
Quem já viu todos os sapatos do metrô sabe que a tragédia é iminente
* Dá licença ?
O tempo rui. Quando está para chover, o tempo desaba, sem uma gota d´água.
* Guarda-Chuva, só cinco reais !
Quem pisa nas poças sabe do que eu estou falando.
As folhas das árvores anunciam que não existem mais segredos.
A sinfonia começa.
* * * *
Velha, velha parceria com Renata
por meu paredro
| 10:20 AM
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Quinta-feira, Agosto 23, 2007
Lembro bem da tua voz
tão leve.
A harmonia do instante perfeito.
É inverno e o idílio acabou.
Incapaz de desistir, me habituei a andar sozinho.
O capim cresce alto, a relva dourada ondula e sussurra.
O dia nasce como ferida que abre novamente.
Em silêncio, a criação parece espantada por ainda existir.
Como planta que jaz ao sol sem refresco,
eu me confundo com a paisagem e
perco o meu tempo.
por meu paredro
| 5:38 AM
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Quarta-feira, Agosto 15, 2007
Vai parar de doer.
A dor não vai mais ser necessária.
As palavras escuras, essas horas lembrando coisas tristes.
Vai parar de doer.
As pontes que tive de queimar,
belezas perdidas em nome do orgulho.
Nunca fui inteligente como as pessoas dizem.
Mas olha, não desista de mim.
Não fique triste.
Eu jamais serei livre
se não for livre agora.
Porque eu acredito,
vai parar de doer.
por meu paredro
| 8:07 AM
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Quinta-feira, Agosto 09, 2007
Uma noite, depois de ter passado a quinta, sexta, sábado, segunda, terça, quarta num movimento eficientemente constante, registrando fichas arquivando cobranças remetendo juros ouvindo impropérios organizando chamadas atendendo mensagens debatendo posições corrigindo processos digitando ameaças despachando telefones redigindo cartas
[Prezado Senhor
fica então acordado que tudo o que pode acontecer acontece;
que tudo o que não acontece, pode não acontecer.
Que tudo o que pode mudar, muda.
E, outrossim, que o não muda, não pode.
Atenciosamente]
assassinando termos consultando fórmulas contabilizando valores tomando medidas
idem providências idem cafés lambendo dinheiro comendo fogo urinando ácidos;
peguei o carro e fui prá casa.
Quando cheguei, todo mundo se divertia com suas mesmas coisas
e logo pensei que nada havia acontecido.
E no decorrer da noite, depois de mais uma vez simplesmente não entender,
tive a certeza de que nada aconteceu mesmo.
por meu paredro
| 7:51 PM
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Domingo, Agosto 05, 2007
Eu ando as calçadas altas da madrugada,
essa teia de ruas onde não há uma aranha sequer
para justificar a existência da Cidade.
Por trás dos olhos das casas percebo rostos ansiosos;
o medo a dúvida a procura.
Quentes ares do Senhor Cidadão
precificados num silêncio de depósito.
Sobreviver na cidade é ter a paciência das pedras do calçamento,
acreditar que o caminho possível
é tirar o melhor desses tempos escuros.
por meu paredro
| 3:59 PM
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