Domingo, Setembro 23, 2007
Foi uma tarde triste. Domingo, o vento, eu sentei no banco da praça e comecei a pensar nas coisas. A noite em que te conheci, tudo o que aconteceu com a gente. Como o amor pode ser vulnerável. Pensei nas cicatrizes que deixa e não soube dizer se vale mesmo a pena. E pensei nas velhas amizades, como vêm e vão e são sensíveis aos detalhes mais bobos. Tive vontades estranhas, um impulso de pegar e ir embora. E ventava, inverno ainda em Curitiba. Eu pensei em todas as viagens que fiz e como vim acabar no mesmo lugar. E pareceu tão fútil eu ali sentado me levando a sério. Foi uma tarde triste. As pessoas passavam e mal olhavam para os lados, ocupadas em fugir do vento e do tédio do domingo. Eu era um fantasma sentado na praça, mais uma alma quieta num dia tão igual. O dia morreu exausto sob o peso das gentes que passavam de um lado para o outro, um rio inexpressivo. De volta para seus fracassos, sua rotina. Tratar do do jantar necessário antes de finalmente dormir, de novo.
Não se preocupa, tá ? Vem aqui quando puder.
Eu tava só sentado no banco da praça pensando nas coisas.
por meu paredro
| 3:23 AM
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Terça-feira, Setembro 18, 2007
Eu costumava sentar a seu lado. As tardes brancas,
balançávamos nossas pernas e olhávamos o mundo pela janela.
Houve uma tarde em que pressionávamos nossos rostos contra o vidro;
em seu colo ronronava o gato siamês.
Ela me olhou com aqueles olhos brilhantes e disse:
- "Pai, mãe, irmão, irmã. Soldado, lavrador, marinheiro, professor.
Ator, cientista, mecânico, padre. A Terra e a Lua e o Sol e as Estrelas.
Planetas e cometas com suas caudas faiscantes. Tudo isso correndo lá fora, adoráveis e infinitos e fascinantes."
Ela sorriu, passou o gato para mim e me olhou longamente, esperando uma resposta. Tudo o que eu queria era poder parar o tempo e olhá-la, quem sabe até sorrir. Mas era o velho maldito mundo lá fora, eu não pude me conter.
- "Isso tudo é mesmo muito bonito", eu disse.
- "Mas olhe aquele ali correndo na rua. Veja como discute com seus
vizinhos, como briga por ninharias. Toda essa energia é desperdiçada, porque as pessoas não vêem além de seus próprios narizes. Olha aquele ali fuçando o lixo, e aquele outro cuspindo nas flores."
Aí eu me voltei para ela; um pêso no coração. Afastei com mãos trêmulas o cabelo rebelde de seus olhos. O Gato pulou de volta para ela que se levantou, fechou as cortinas e trovejou:
- "Quando é que você vai aprender que o que acontece lá fora não é
problema seu ? Deus te deu um só coração, você não é o guardião do coração dos outros. E Ele não liga a mínima para a nobreza dos seus princípios, o que importa é o reflexo de seus atos nas pessoas. E não quer nem saber de você aí sentado nas janelas julgando o mundo que Ele criou. Todas essas angústias amontoadas a sua volta; azêdo, inútil e arrogante"
Quando ela virou para ir embora, ainda vi as lágrimas rolando de seus
olhos.
Foi a última tarde daqueles tempos antigos.
( Transpirado de Nick Cave )
por meu paredro
| 6:35 PM
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Quarta-feira, Setembro 12, 2007
Só nos comunicamos alguns segundos por dia.
Pequenos minutos roubados do tempo.
Eu sei que vai ficando pior a medida que os dias ficam mais curtos
Mais difícil com os meses correndo tanto.
Eu te vejo correr como um animal mitológico.
Eu te vejo gritar como a última ninfa da história.
Só tentamos alguns minutos por dia
Algumas horas batalhadas no tempo.
Eu sei que vai ficando pior a medida que os dias ficam mais longos.
Não me esqueça simplesmente, não me deixe desaparecer.
Não desapareça, não deixe de ser.
Eu te vejo se debatendo.
Só nos falamos por alguns segundos de cada vez.
Pequenas luzes presas no tempo.
Eu sei que vai ficando pior.
por meu paredro
| 2:44 AM
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Segunda-feira, Setembro 10, 2007
Se eu pudesse ser qualquer coisa
das coisas entre as coisas que são capazes de voar,
eu seria um morcego e viria direto esvoaçar á sua volta.
E se da última vez que você esteve aqui,
as coisas tivessem sido ditas do jeito certo
porque você sabe o que acontece quando fica escuro
e as cobras perdem suas peles e seus corações.
Quando até as pessoinhas carolas esquecem seus discursos.
Ah, e todas as árvores da floresta arvorejam por você
e todo o veneno proibido se arrisca nos caminhos por você
e as montanhas se penduram em suas bases procurando você.
Se eu pudesse ser qualquer coisa entre as coisas que vôam por aí,
em vez de super ave estravagante, eu seria uma pipa.
Ficaria preso na ponta do seu fio e voaria em segredo á noite.

E tudo o que é redondo sai rolando á sua procura.
E rochas pré-históricas saltam das profundezas da terra por você,
e as criaturas mais estranhas
percorrem os cantos da noite atrás de você.
Cortinas bordadas com diamantes se abrindo á sua passagem.
Cavaleiros em batalhas lancinantes, o Exército dos Cavaleiros Cruzados,
Todo o Sacro Império Romano lutando por você
e o gelo derretendo do pico das montanhas, apenas por você.
E morcegos que com um beijo se tornam príncipes, tudo por você.
por meu paredro
| 12:22 AM
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Terça-feira, Setembro 04, 2007
Perigo é me tornar mais um desses que se jogam na armadilha
e gritam lá do fundo:
- Que é que eu vou fazer ? Eu não posso perder meu emprego.
Você vai e dá um jeito de merecer seu pagamento. Civilizado, sob controle; até mesmo eficiente. É preciso comprar o caminho, ganhar o dia e todo dia. Mas não é fácil se manter dentro da roda. Segurar a raiva e salvar algo de si para os descansos regulamentares. Cansado, paranóico, isso nunca diminui.
A decisão lógica é sair antes que te mandem embora. Mas eles te têm bem preso, você precisa se manter dentro da roda. Precisa do dinheiro, do crachá; segurança compulsória corporativa. Nada mais natural que vestir a fantasia. E se você for bom o suficiente por tempo suficiente, tudo vai acontecer sem grandes percalços.
Pagar o aluguel, as contas, comprar do doutor aquelas pílulas felizes.
E trabalhar por mais um dia, antes que a vida acabe.
por meu paredro
| 7:03 AM
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