Domingo, Março 30, 2008
Termina o verão, as noites vão ficando frias. Crianças crescem, velhos amigos parecem realmente velhos. Pouca coisa acontece, vou vivendo tardes brancas e noites de trabalho. É a realidade escondida na palma da minha mão fechada, solução egoísta mas eficaz contra aquilo que realmente fere. Mas hoje eu até que não vou mal, novas lembranças caindo no redemoinho das coisas, premissas para continuar vivendo; perspectivas. Uma placidez que me permite desmoronar um ou outro castelinho de areia que andei construindo. Não iriam me abrigar mesmo. Vou criando um novo ritmo, mais calmo e paciente. Aprendendo a congelar o momento e gostar dele. Alerta, mas relativamente tranquilo.
por meu paredro
| 9:47 PM
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Sábado, Março 22, 2008
Ás vezes acontece
não dá mais vontade de continuar
Essa normalidade não combina com o que te vai por dentro.
Você procura se manter fiel ao que acredita
mas sente este vazio o tempo todo.
Gostaria de encontrar alguém louco o suficente
para dar algum sentido a tudo isso
mas não há ninguém disposto a interromper o que está fazendo.
Você não consegue decidir o caminho a seguir
e devagar vai cavando seu próprio buraco.
Sabe que há algo mais, mas não consegue dizer o que é.
Estão vendendo todas as tuas certezas
e o pouco que sobrou já não basta.
Você já ouviu tudo isso antes.
A vida perdendo a graça, estranho estar acontecendo com você.
É como um filme ruim.
Caindo, indo parar cada vez mais longe do começo.
Você tenta dormir através dos sons da cidade.
Ao longe, telefones tocam interminavelmente.
Espera sonhar com lugares distantes
onde nada disso consiga chegar.
Voar por sobre a tempestade
e caminhar descalço
por areias brancas.
por meu paredro
| 1:23 PM
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Quinta-feira, Março 13, 2008
Querida Tia Eugênia
Em primeiro lugar, quero garantir á senhora que estou bem apesar de tudo. Na segunda-feira, dois dias após a nossa conversa, aquela minha dor se tornou aguda por demais e resolvi seguir seu conselho: falei com o primo Gabriel e marquei consulta no cardiologista do qual me falaste.
O consultório do doutor é mesmo vistoso, mais parece um palácio daqueles das histórias. Fui atendido em poucas horas.(Gabriel é mesmo influente!) Tia, a medicina mudou muito. Tantos exames, auscultações e cardiogramas; eu estava certo de que o famoso médico teria a solução para o meu problema. Mas quê nada. Ele me fez sentar em uma cadeira de couro branco e começou a revirar aquelas coisas, tia, as que me dóem.
E por Deus, ele percorreu todos os momentos mais intensos. A primeira vez que a vi, o modo como ela inclinava a cabeça para me ouvir, o cheiro que tinha no pescoço. Mesmo com a anestesia, a pontada era ás vezes terrível e eu não conseguia reprimir uns gemidos que faziam o doutor franzir seus olhos tão medicinais. Ele passou horas chapinhando, pensei que não fosse aguentar.
Quando finalmente acabou, eu vou te dizer, tia. Acalme-se agora, não tenha medo, não caia de costas. Está tudo bem. Mas foi bizarro, o doutor olhou longamente pela janela, suspirou e me mandou desaparecer da frente dele. Simples assim. Ele estava pálido e rabiscava naquela caligrafia garranchuda e tia, a prescrição que escrevia era para ele mesmo. Eu vi, posso te jurar! Ele escrevia o nome dela, várias vezes, como um demente! Antes que eu tivesse tempo de reagir, deu uma gargalhada gorgolejante e correu para a sala de exames, trancando-se lá dentro. Eu não podia aceitar, tia, eu bati, quase derrubei a porta.
As enfermeiras tiveram que me arrastar de lá. E ele levou tudo, a lembrança das nossas idas e vindas, as imagens que eu guardava com tanto ciúme. Eu queria matar aquele maldito doutor. Só me acalmei quando, ao voltar no dia seguinte, soube pela secretária que ele só piorava; sua carreira está arruinada. Tive até pena.
Tia, agora estou em casa tomando aqueles chazinhos que vovó dizia milagrosos. Ás vezes quase me esqueço, chego a sorrir com as coisas bonitas que vejo na janela. Eu te asseguro, não se preocupe comigo. Espero ainda passar o Natal com a senhora e os primos, morro de saudades do seu pavê de pêssegos. Tudo vai ficar bem.
Um beijo do seu sobrinho
por meu paredro
| 6:50 AM
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Quinta-feira, Março 06, 2008
Vertigens diárias,
noites sem dormir
pensamentos contraditórios
precisamos cair sempre ?
As coisas acontecendo lá fora,
o mundo que vivíamos não faz tanto tempo
não faz agora o menor sentido
esses dias todos pensando,
precisa ser assim ?
Fragilizados um pelo outro
deixando de ser quem gostamos de ser
tentando de toda forma descobrir
se precisa doer tanto
se precisamos cair sempre
Precisamos cair sempre ?
Estranhos na multidão,
pessoas que não se importam
só resta agora esquecer ?
Sem você por perto
parece tão absurdo
que precise doer tanto
que precisemos cair sempre.
por meu paredro
| 8:58 PM
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Segunda-feira, Março 03, 2008
Meio por acaso eu atentei para as horas do dia,
os pequenos vislumbres de todas as coisas
e percebi que tenho estado sangrando.
Perdendo substância, empapado de tempo, ficando fraco; sangrando.
Há quanto tempo, nem tenho idéia.
E fico pensando, que tipo de ferimento é esse, o que pode ter me atingido.
Que tipo de armas existem agora que nem sou capaz de imaginar ?
Deve ser a bala mais leve jamais disparada.
por meu paredro
| 3:07 PM
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FRAGMENTOS - A Escrita.
- Dois mitos poderosos nos fizeram acreditar que o amor podia, devia se sublimar em criação estética: o mito socrático (amar serve para "engendrar uma multidão de belos e magníficos discursos") e o mito romântico (produzirei uma obra imortal escrevendo minha paixão)
- De um lado é não dizer nada, de outro é dizer demais. Impossível ajustar. Sou ao mesmo tempo muito grande e muito fraco para a escrita. Estou ao lado dela, que está sempre fechada, violenta, indiferente ao eu infantil que a solicita. O amor tem certamente alguma coisa a ver com minha linguagem (que o alimenta), mas ele não pode se instalar na minha escrita.
- Querer escrever o amor é enfrentar a desordem da linguagem: essa região tumultuada onde a linguagem é, ao mesmo tempo, demais e demasiadamente pouca, excessiva (pela expansão ilimitada do eu, pela submersão emotiva) e pobre (pelos códigos sobre os quais o amor a projeta e a nivela)
Saber que não se escreve para o outro, saber que as coisas que eu escrever não me farão nunca amado por aquela que amo, saber que a escrita não compensa nada, não sublima nada, que ela está precisamente aí onde você não está - é o começo da escritura.
( Roland Barthes )
por meu paredro
| 2:28 PM
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